Troque a Fome por Flor

 A ação busca promover a humanização e a autonomia dos participantes

Para a população em situação de rua, são permanentes os desafios na busca por formas de se manter. O sustento costuma vir da solidariedade de desconhecidos. E foi assim que o projeto Troque a Fome por Flor surgiu, como uma proposta para que moradores de rua gerem renda de forma mais humanizada e constante.

Luís Carlos Corrêa, 33 anos, é natural de Dom Pedrito. Na procura por trabalho, já andou por diferentes cidades do país, principalmente as do território gaúcho. No início do ano, deixou a esposa e os quatro filhos em Osório, onde vivem, e foi a Tramandaí buscar trabalho no veraneio. Ficou algumas semanas por lá e, depois, encontrou um amigo com duas passagens para Porto Alegre. Avisou a família e decidiu pegar novamente a estrada.

Na Capital, ficou 15 dias no Albergue Dias da Cruz, bairro Azenha. Passado esse período, precisou sair do local e, naturalmente, começou a conhecer a população em situação de rua. Foi quem deu a Luís dicas de como se virar em Porto Alegre. A venda de balas o manteve, mas ainda sem concretizar o objetivo que o levou para a cidade, enviar dinheiro para ajudar a esposa.

As sinaleiras se tornaram a principal fonte de renda de Luís. E foi em uma delas, enquanto segurava uma placa com os dizeres “Estou com fome. Me ajude” que conheceu o estudante Lorenzo Dovera, 24 anos, do bairro Medianeira. Foi desse encontro entre os dois, em 8 de maio, que teve início o Projeto Troque a Fome por Flor.

“É gratificante ver a alegria no rosto”

A ocasião em que Luís e Lorenzo se conheceram não foi um acaso. O estudante é formando no curso de Administração Pública e Social pela UFRGS. Em seu Trabalho de Conclusão de Curso, falou sobre algumas políticas públicas da Capital voltadas aos moradores de rua, como os albergues e os Centros de Referência Especializados para População em Situação de Rua (Centros Pop).

– Mas eu queria sair da teoria e ver na prática como tudo acontecia. Foi quando eu e minha mãe vimos as placas “Estou com fome”. Então, um dia antes do Dia das Mães, nós tivemos a ideia. Porquê não trocar essa placa por outra que dê mais dignidade?  – conta Lorenzo.

A escolha das mudas foi para aproveitar a data comemorativa, quando é comum as pessoas presentearem suas mães com flores. E deu certo. Aos agora floristas que participam do projeto foram entregues plantas e outra placa, desta vez, com os dizeres: “Troque a Fome por Flor”.

– Segue até agora. É gratificante ver a alegria no rosto das pessoas que estão ajudando. A flor é vida, e eu acredito que a minha vida começou de novo – complementa Luís, que enfatiza sua satisfação em ver o sorriso de quem recebe as flores.

Trocas

A prioridade do projeto é atender pessoas em situação de rua que estão acessando algum tipo de política pública do município, como os Centros Pop ou os albergues. No momento, a ação está mais concentrada no Centro Pop do bairro Praia de Belas. É ali, próximo à Rótula das Cuias, que os participantes se encontram para começar a jornada diária. De terça a sexta-feira, Lorenzo leva para eles as mudas que compra na Ceasa.

Para os que chegam pela primeira vez, são entregues três mudas. Se conseguirem vender, no dia seguinte lhes é dada uma caixa com mais oito. Essas primeiras plantas são distribuídas aos moradores de rua sem custo. Nas próximas, Lorenzo pede uma colaboração de R$ 0,50 para cada arranjo. É a forma que encontrou de conseguir um valor para dar continuidade ao projeto. Além da compra das mudas, eles utilizam materiais escolares para a montagem dos cachepots feitos de caixinhas de leite – o cachepot é um recipiente decorativo onde são colocados os vasos de plantas.

Hoje, com a venda das flores, Luís já consegue enviar um pouco de dinheiro para sua família. E, ao falar sobre a nova ocupação, ele explica que, na verdade, nem entende o que faz como sendo uma comercialização:

– É uma troca. Eles estão me ajudando e eu os ajudo, dando uma flor em troca de uma moeda ou alimento. Não é só o valor.

Acolher de verdade 

Com as plantas em mãos, os floristas se espalham pelas sinaleiras da região central da cidade. Themis Dovera, 61 anos, mãe de Lorenzo, apoiadora do projeto e professora do curso de Enfermagem da UFRGS, fala que a ideia é ir além da renda e reforçar também a autoestima:

– Oportunidades, como o Lorenzo gosta de dizer, são o que falta.

Em dois meses, criou-se uma rede de colaboração na ação. Na Ceasa, a cada sete caixas com oito mudas que Lorenzo compra, o local dá mais três caixas para o projeto. Outras pessoas doam caixas de leites higienizadas, materiais escolares e revistas usadas para fazer o acabamento dos cachepots.

– Dentro dessa cadeia, temos uma professora aposentada que chegou a fazer 90 cachepots. Tem toda essa corrente. É um coletivo – finaliza Lorenzo.

Fonte: GZH Porto Alegre.