Mulher com espírito batalhador muda a vida da comunidade na Vila Joanita

Dona Junia cedeu a própria casa para que voluntárias do Instituto WF criassem uma sede da associação dos moradores, uma referência para todos na vila

Dona Junia Célia da Costa Silva, maranhense de 57 anos e moradora da Vila Joanita, na divisa entre o Tarumã e o Bairro Alto, em Curitiba, rompe o estereótipo de fã de rap. Afinal, ela é uma bisavó que gosta de Racionais MC’s.

Desde 1992, ela reside na ocupação batizada de Joanita em homenagem à sogra, que era uma entusiasta da regularização fundiária da vila. Joanita morreu sem ver o sonho realizado, mas plantou uma semente que germinou na nora. Esta sim, com um sonho diferente, conseguiu concretizar o desejo de ter um espaço adequado para as reuniões e eventos da associação: a sede fica na sua própria casa.

“…onde estiver, seja lá como for
Tenha fé porque até no lixão nasce flor.”

Racionais MC’s

Além da fé, ação. Em 2014, Dona Junia e os moradores de mais de 174 casas da vila sentiram o medo de ser realocados. Ela bateu o pé, disse que não ia sair. Deixar o local onde criou os filhos e alguns dos netos não era uma opção. O que ela queria era regularizar a situação.

O espírito batalhador a tornou uma liderança local e entre uma reunião e outra no meio da rua, pensou que devia haver um lugar adequado e seguro para a comunidade debater os assuntos de interesse comum.

Voluntárias

Então veio a pandemia. Na comunidade, ao menos nove pessoas morreram por complicações causadas pela covid-19. Outras lideranças apontaram mais uma demanda: era preciso um lavadouro comunitário para higienização das mãos.

Do outro lado de Curitiba, voluntárias entregavam marmitas para população em situação de rua na região central. Porém, durante os primeiros meses da covid-19, as iniciativas eram tantas que muitos grupos “esbarravam” uns nos outros enquanto atendiam pessoas mais vulneráveis.

Nesse cenário, um grupo de voluntárias decidiu realocar a força-tarefa e assim chegou à Vila Joanita. Lá, descobriram que só as marmitas não eram suficientes. Era preciso providenciar o lavadouro – e por que não? – uma sede para a associação dos moradores.

Instituto WF

As voluntárias ouviram e entenderam os desejos dos moradores. No entanto, era preciso atender a demanda de forma oficial e mais: envolver parceiros e dar transparência ao processo todo. Assim as voluntárias, que trabalham na construtora Weefor, criaram o Instituto WF para viabilizar os projetos de impacto social.

O primeiro projeto – a sede da associação – custou R$ 400 mil. O salão tem banheiros, mesas, cadeiras, pia, bebedouro, acessibilidade e fica no térreo do local onde antes ficava a casa de Dona Junia. Ela doou parte de seu terreno e viveu de aluguel até a conclusão da obra.

Tudo foi custeado pelo WF usando um percentual do valor geral de venda de imóveis da Weefor e com a ajuda de parceiros como as incorporadoras Idee e Altma, a Hiex empreendimentos e a Rac. Além de diversos outros voluntários e colaboradores – cerca de cem pessoas trabalharam diretamente na obra.

Dona Junia, em ação

Ponto de referência

Ainda com cheiro de coisa nova, a sede da associação se torna aos poucos um ponto de referência para a comunidade. A ideia é que, nela, as pessoas possam discutir os problemas que todo mundo enfrenta. Como ruas esburacadas, falta de moradia e desemprego.

Com o tempo, Dona Junia espera que todos percebam como podem e devem usar o espaço: como se fosse uma segunda casa.

“Eu não tenho dom pra vítima.
Justiça e liberdade, a causa é legítima.” Racionais MC’s

Fonte: Plural Curitiba