A solidariedade que abraça em tempos de guerra

Caritas polonesa e ucraniana, Aliança de Misericórdia, sacerdotes e religiosas se mobilizam em ações concretas a serviço dos irmãos que sofrem

A solidariedade que abraça em tempos de guerra

Há quase um mês, o mundo acompanha as notícias sobre a invasão da Rússia à Ucrânia – uma guerra que vem causando uma série de destruições, mortes e, sobretudo, uma avalanche de refugiados.

Segundo dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), mais de 3,5 milhões de pessoas já fugiram da Ucrânia, e esse número poderá aumentar se a guerra continuar.

Em meio ao cenário de bombardeios e saída em massa da população, o mundo acompanha as várias mobilizações de solidariedade para acolher e garantir a dignidade de quem precisa partir deixando tudo para trás.

FICAR JUNTO A ESSE POVO

Padre Lucas Perozzi Jorge, 36, é brasileiro, natural de Álvares Machado (SP), pertence ao caminho neocatecumenal e é vigário da Igreja da Dormição da Santíssima Virgem Maria, em Kiev, capital da Ucrânia. O Sacerdote, que reside no País desde 2003, decidiu ficar ao lado do povo.

Em entrevista ao O SÃO PAULO, Padre Lucas contou que, não obstante a Rússia ter começado a bombardear a cidade, em meio ao som dos mísseis, das sirenes, sua decisão de ficar veio do coração e da oração. “A decisão já foi tomada desde o início. Eu poderia até escapar da guerra, mas a minha cruz, a minha consciência não me deixaria em paz. Sou Sacerdote e, como Cristo, estou para servir e testemunhar sua Palavra neste lugar. É uma grande responsabilidade não somente porque sou Padre, mas por ser cristão”, disse à reportagem, reafirmando o desejo de cumprir sua vocação.

Na Paróquia, o Sacerdote acolhe, no momento, 30 famílias, entre membros da comunidade e paroquianos.

O Padre explicou que as pessoas que estão ali abrigadas não conseguiram lugar em bunkers, que são os espaços subterrâneos antibombas. A Paróquia tem três andares, um deles um pouco abaixo do nível da rua e coberto com uma estrutura de metal, com capacidade de abrigar com certa segurança. “Neste local, estamos protegidos, precisamos estar sempre com as luzes apagadas, pois com elas acesas ficamos muito expostos aos inimigos. Por isso, a orientação é para não acender as luzes como uma medida de segurança.”

No local acontecem as refeições, distribuição de medicamentos e, diariamente, a missa é celebrada. “A Eucaristia nos sustenta neste momento devastador. É Cristo presente no meio de nós”, afirmou o Padre, que, por meio das redes sociais, transmite a missa. “É uma forma de tranquilizar, também, meus familiares que rezam comigo pedindo pela paz.”

Durante a entrevista, o Sacerdote afirmou: “Já não me assusta o barulho das bombas”. Ele reforçou que é difícil compreender a brutalidade humana: “As cenas da guerra impactam demais, um tanque explodindo prédios e matando tantos inocentes”.

“Muitas pessoas me perguntam onde está Deus, por que Ele permite tudo isso? Deus está aqui. Está nas pessoas. Deus se faz presente, mesmo neste cenário de guerra, Ele emana seu amor sem limites, se revela Amor”, finalizou.

A solidariedade que abraça em tempos de guerra

AÇÃO SOLIDÁRIA

A Polônia é um dos principais polos de acolhida dos ucranianos neste momento de guerra. O movimento eclesial Aliança de Misericórdia na Polônia está acolhendo os refugiados, oferecendo abrigo, alimentação e atenção às suas necessidades. Recentemente, os fundadores Padre João Henrique Porcu e Padre Antonello Cadeddu estiveram em missão na Polonia. Na estada em terras polonesas, os sacerdotes e os missionários foram até a estação de trem de Poznań, por onde têm chegado os ucranianos, e viram de perto a realidade e prestaram ajuda e solidariedade.

“É uma situação desoladora, mas não podemos perder a esperança, pelo contrário: é hora de intensificarmos as nossas orações, clamando a Divina Misericórdia do Senhor pelo povo ucraniano que tanto tem sofrido com a guerra em seu país”, disse Padre João Henrique.

Marcelo Francisco Chagas, 23, é brasileiro e membro do movimento eclesial na Polônia. O jovem destacou que a Aliança de Misericórdia está atuando ativamente em uma arena em Poznań, onde são feitos os primeiros atendimentos, “acolhida, mobilização para garantir alimentação, remédios aos que chegam, e, também, a busca por apartamentos ou famílias em que estes serão acolhidos”.

Entre as ações, em Varsóvia há o aco- lhimento às famílias que são encaminha- das para os albergues, hotéis dispostos a acolher o povo que chega. Em Toruń há campanhas de arrecadações. “A nossa ex- periência de Aliança está para além de ir ao encontro nas ruas. Abrimos as portas das nossas casas para poder acolher os refugiados. Por exemplo, estão acolhidos na comunidade de Poznań uma criança e seus pais”.

Chagas contou à reportagem o testemunho de uma criança ucraniana. “Fiquei impressionado com o relato: a sair da Ucrânia, a criança trouxe consigo, guardado em seu bolso, um pouco da terra do seu país. O quanto esse gesto representa para ela, tão pequena e ao mesmo tempo ciente das consequências desta guerra”, afirmou.

A solidariedade que abraça em tempos de guerra

Aliança de Misericórdia na Polônia

SOLIDARIEDADE

Caritas da Polônia, a Igreja local e a Caritas da Ucrânia garantiram um lar seguro na Polônia a 650 menores, incluindo órfãos e crianças com deficiências diversas. O local é amplo e pode acolher até duas mil crianças.

Caritas está prestando assistência permanente na fronteira polonesa-ucraniana, em pontos de ajuda e nas Tendas da Esperança, onde os refugia- dos recebem alimentos, bebidas quentes, garrafas térmicas, cobertores e sacos de dormir.

Na Arquidiocese de Przemyśl, os voluntários entregam 30 mil sanduíches diariamente. Já na estação ferroviária de Przemyśl, a Caritas criou um espaço de- dicado somente a mulheres com filhos.

Os voluntários e a entidade viabilizam o transporte humanitário para a Ucrânia, com suprimentos de alimentos, água, remédios, itens de primeiros socorros, roupas e outros produtos. Já foram 150 caminhões enviados.

Doações podem ser feitas no site da Caritas da Polônia.

CONVENTOS ACOLHEM REFUGIADOS

A vida religiosa consagrada na Ucrânia e na Polônia está atuando ativamente na ajuda aos refugiados.

Estima-se que existam quase 150 congregações religiosas ativas nos dois países. As 498 casas religiosas na Polônia e as 76 na Ucrânia estão oferecendo estada em seus conventos. Até o início desta semana, mais de 3 mil crianças, 2.420 famílias e quase 3 mil adultos encontraram abrigo.

Em 64 estruturas, 600 lugares foram reservados para órfãos, e, em outras 420 instalações, existem cerca de 3 mil lugares para mães com filhos.

As religiosas estão à frente na preparação e distribuição de refeições, alimentos, produtos de higiene, roupas e cobertores. Ajudam no transporte de pessoas das zonas de guerra, atuam como mediadoras na procura de emprego na Polônia, abrem postos de trabalho adicionais nas instalações que gerem, ajudam as crianças ucranianas a se integrarem nas escolas polonesas, ser- vem como tradutoras de língua ucraniana e elas próprias organizam aulas para as crianças e as mães que chegam da Ucrânia. As freiras têm oferecido, ainda, ajuda espiritual, psicológica e médica aos refugiados de guerra.