Carnaval também é solidariedade

Parceria entre Agência da ONU para Refugiados, e o Salgueiro promoverá a participação de refugiados na Sapucaí

Refugiados no ensaio técnico do Salgueiro

Rio – Os desfiles do Carnaval carioca costumam apresentar sagas históricas, curiosidades e trazer à luz situaçãoes específicas de alguns grupos humanos, criando uma consciência no público sobre o que parecia invisível à maioria. Este ano, a Acadêmicos do Salgueiro, que apresenta o enredo ‘Resistência’, dia 22 de abril, coloca na avenida um grupo de 20 refugiados de cinco nacionalidades diferentes, e que adotaram o Riopara um novo começo.
A primeira participação de pessoas refugiadas na Sapucaí acontece graças a uma parceria entre a Agência da ONU para Refugiados (Acnur) e a agremiação. O grupo foiselecionadas pela Cáritas Arquidiocesana do Rio e pelas Aldeias Infantis SOS Brasil, parceiras da Acnur no acolhimento, atendimento e proteção desta população no Estado do Rio.
Refletindo a diversidade brasileira e o acolhimento que todos costumam ter no Brasil, vão desfilar refugiados de Angola, Marrocos, República Democrática do Congo, Síria e Venezuela. Eles sentiram o gostinho de pisar na Sapucaí no ensaio técnico, semana passada.
“Esta é uma oportunidade única para elevarmos o perfil da causa dos refugiados no Brasil, com uma mensagem de inclusão e solidariedade. O Brasil tem uma tradição no acolhimento das pessoas que precisam de proteção internacional, e a história do Salgueiro, que sempre privilegiou as raízes africanas da cultura brasileira, dialoga diretamente com nosso objetivo de não deixar ninguém para trás”, afirma o representante da Acnur no Brasil, Jose Egas.
O enredo salgueirense vai retratar lugares importantes do Rio de Janeiro que ficaram marcados como pontos da cultura negra, comoPraça 11, Saúde, Gamboa, Santo Cristo.O próprio Morro do Salgueiro é um espaço de resistência destacado pelo enredo do carnavalesco Alex de Souza.
“Apesar do enredo falar sobre resistência preta, nós estamos pedindo respeito, valorização e reconhecimento a todas as minorias, o que inclui os refugiados. O Brasil acolhe, mas precisa dar oportunidade de crescimento a todos os que chegam”, afirma o presidente do Salgueiro, André Vaz.
Uma das mais tradicionais escolas de samba do Rio, o Salgueiro implementa vários programas sociais que beneficiam a comunidade do Andaraí e que também pretendem atender refugiados. “A atual gestão trabalha para que o título venha e, com ele, o trabalho social seja fortalecido. Esperamos trazer a Acnur para abrir um polo de capacitação aqui”, afirma Vaz.
Em todo o Brasil, há mais de 62 mil pessoas refugiadas de mais de 50 nacionalidades. As mais representativas são da Venezuela (78%), Síria (7%) e República Democrática do Congo (3%), além de haver outros 150 mil pedidos da condição de refugiado em análise pelo Comitê Nacional para os Refugiados. Na cidade do Rio, há 1.216 pessoas refugiadas e mais de 1.500 no estado.
“Estamos gratos ao Salgueiro, que demonstrou grande sensibilidade ao abrir sua quadra para pessoas refugiadas”, reforçou Jose Egas.
Em 2023, o Salgueiro completará 70 anos. Este ano, a escola tijucana tenta seu décimo título, e sagrando-se campeã ou não, é uma das escolas mais queridas do Rio pela força da sua bateria, a Furiosa, por sua importância histórica e por sempre trazer inovações à festa carnavalesca.
O que se tornou “o maior espatáculo da terra” se moldou a partir de 1960, quando Fernando Pamplona, formado pela Escola Nacional de Belas Artes, chegou à agremiação, colocando sob os holofotes personagens negros brasileiros e ao mesmo tempo criando um espetáculo que agradava todas as camadas da sociedade.
No seu primeiro trabalho, trouxe como enredo Zumbi dos Palmares: era a primeira vez que um personagem não oficial da nossa história era tema de uma escola de samba.
Outra contribuição importante do Salgueiro foi, engenhosamente, achar uma brecha na regra dos desfiles da época. O jovem Joãosinho Trinta criou o enredo ‘O Segredo das Minas do Rei Salomão’ em 1976. Outras escolas ainda tentaram impugnar o desfile da vermelho e branco, argumentando que a história do Rei Salomão, que citava os marinheiros fenícios, descumpria a obrigação de que o enredo fosse sobre temas brasileiros.
O pulo do gato de Joãosinho foi argumentar que vários historiadores aventavam a possibilidade de fenícios terem vindo ao Brasil. Essa ‘manha’ deu abertura, aos poucos, para os carnavais seguintes.
Fonte: O Dia