“Por que as favelas não têm aulas de ioga? Decidi que eu mesma ofereceria isso como forma de ajudar no resgate da autoestima”

Trabalhar voluntariamente em instituições como presídios ou manicômios é uma forma de ajudar a população carente

Eu tive uma infância diferente, uma família um pouco atribulada, com pais que já tinham filhos de outras relações, o que me fez procurar um caminho para estar distante daquilo tudo.

A dança foi o meu primeiro refúgio e porta para o mundo das artes. Aos 13 anos, comecei a fazer balé; aos 18 já era bailarina profissional. Mas depois preferi migrar para o teatro e o circo

Durante esse percurso, participei de vários espetáculos teatrais, musicais, propagandas em redes de TV e agências publicitárias. Também trabalhei em agências na área de Rádio e TV, pois o meu forte sempre foi produção.

Fui bike woman no Courrieros (entregadora de documentos) e, em paralelo a tudo isso sempre, desenvolvi trabalhos voluntários em presídios e comunidades.

POR QUE DECIDI ATUAR NO CARANDIRU?

A princípio, meu interesse era trabalhar voluntariamente em instituições como presídios ou manicômios (era esse o termo da época para se referir a hospitais psiquiátricos). Queria estar perto, conhecer essas pessoas, por curiosidade.

Aos 17 anos, iniciei meus trabalhos em presídios, até que em 1987 comecei a atuar na casa de detenção Carandiru, onde criei dois projetos importantes

O “Teatro no Presídio” e o “Talentos Aprisionados” tinham como objetivo realizar cursos de teatro, dança, desfile, artes plásticas e literatura com os presos.

Foi dali que surgiram pessoas talentosas como os integrantes do grupo de rap brasileiro 509-e, formado por Dexter e Afro-X, e o escritor Luiz Alberto Mendes, autor de Memórias de um Sobrevivente.

Eu não tinha medo nenhum de trabalhar no Carandiru, inclusive era muito bem tratada por todos. Eles sentiam que eu estava ali para proporcionar algo bom em meio ao caos, e o meu sentimento era e sempre foi verdadeiro

Sim, era um lugar um tanto diferente para uma mulher escolher trabalhar, não é mesmo? Pois bem, escolhi o Carandiru a dedo e por lá fiquei durante 11 anos.

ENCONTREI NA IOGA UMA OUTRA FORMA DE AJUDAR — DESTA VEZ, O PÚBLICO FEMININO DAS PERIFERIAS DE SÃO PAULO

Amo desafios, conseguir o impossível, estar em movimento, oferecer o meu melhor a quem sabe e gosta de receber. O que me inspira na vida são as pessoas e suas atitudes!

Aula do Treino na Laje, no Capão Redondo.

Foi também por isso que a ioga transformou a minha vida.

Comecei a estudar e praticar essa filosofia milenar em 2016. Depois, fui dar aulas particulares e vi na ioga um caminho para ajudar muitas mulheres que não têm acesso a essa atividade.

Passei a me questionar por que as favelas não têm aulas deste tipo. E decidi que eu mesma ofereceria isso.

Queria que os treinos fossem realizados em cima de uma laje, que para mim representa muito a periferia.

Neste momento criei, em setembro de 2018, o Treino na Laje, que leva ioga e outras atividades para moradoras da periferia de São Paulo com o objetivo de resgatar sua autoestima

Respiro esse projeto diariamente, me doo por completo a essa iniciativa que é meu respiro, um lugar que me cura e que cura as pessoas que ali estão.

O treino de ioga já foi realizado em quatro lajes. Mas como algumas delas eram pequenas e não suportavam a demanda das alunas, transferi as aulas para o Parque Santo Dias, no Capão Redondo, para a quadra de uma escola pública, no Jardim Arpoador, e para um circo, no Jardim Guacuri, em Diadema. Assim, consigo atender 300 alunas.

Durante a pandemia, o projeto cresceu bastante e passamos a distribuir em média mil cestas básicas nestes locais, graças à ajuda da empresa ScanSourceInc., que abraçou a causa.

Também iniciamos a distribuição de lanches na Cracolândia, às sextas-feiras, sábados e domingos (quando também levamos bolo!). Por dia, doamos 600 lanches e 100 litros de café, chocolate, chá e suco.

Ambas as ações continuam sendo braços do projeto.

DESCOBRI UM CÂNCER, MAS SEGUI EM FRENTE SABENDO QUE PRECISAVA SER EXEMPLO

Com o projeto acontecendo a todo o vapor e a pandemia persistindo, em 2021 recebi uma das notícias mais impactantes: o diagnóstico de um câncer de amídala.

Sophia, de rosa, em uma de suas aulas do treino na Laje.

 

Naquele momento, decidi enfrentar o acontecimento com muita garra, sabendo que iria sair daquela situação.

Para isso, tive a ajuda de muita gente que não me deixou interromper o projeto. Inclusive, obrigada a todos!

Mais uma vez, olhei para a situação e pensei: quero usar isso como combustível para mim e para aqueles que estão ao meu redor.

Se senti medo? Lógico, na verdade eu morri de medo, pois sou uma pessoa apaixonada pela vida. Mas, na época, decidi transformar cada momento de luta, fraqueza e vulnerabilidade em vídeos, textos e imagens, para aqueles que me acompanhavam nas redes sociais

Eu sabia que era exemplo para muitas pessoas e para as meninas do Treino da Laje. Sentia que não podia deixar a peteca cair, mesmo quando o meu corpo não reagia mais aos comandos da mente.

Entre um desmaio e outro e adaptações de tratamentos e remédios, eu estava ali de coração firme para mostrar que os desafios são caminhos que surgem para que possamos sentir a vida com mais intensidade.

Após alguns meses, finalizei o tratamento e permaneço na luta para fazer com que o meu corpo, espírito e mente continuem em sintonia.

MEU SONHO AGORA É EXPANDIR O PROJETO PARA OUTROS LUGARES

Sabe aquele sentimento de pertencimento, de ser útil e bem tratada, que sentia nas casas de detenções por onde eu passei? Continua o mesmo até os dias de hoje com a pessoas do Treino na Laje.

Cada encontro com a galera da ioga, o pessoal da Cracolândia, as famílias carentes para quem fazemos doações de cestas básicas, os parceiros do programa, minha mãe, meus filhos, minhas netas, amigos e todas as pessoas que chegam até mim por meio do projeto, tudo isso me faz enxergar e sentir que estou no caminho certo

E mais: que a Sophia dos meus 13 anos de idade sempre esteve aqui, caminhando ao meu lado, em busca de mudanças — e buscando ressignificar seus sonhos.

Futuramente, penso em expandir o Treino na Laje para longe. Hoje, o meu sonho é que o projeto ganhe cada vez mais força e visibilidade, para que mais e mais pessoas sejam beneficiadas.

E você pode ajudar neste propósito colaborando com nossa campanha!

Sophia Bisilliat, 59, nasceu em São Paulo. É filha de Sheila Maureen Bisilliat e Jacques Bisilliat. Formada pela Dança Stagium, Teatro Antunes Filho CPT e Circo Acrobático Fratelli, trabalhou na casa de detenção Carandiru por 11 anos, onde criou os projetos “Teatro no Presídio” e “Talentos Aprisionados. Atua como professora de ioga e é idealizadora do projeto social Treino na Laje desde 2018.

Fonte: Draft