“A unidade vence a fome”, diz secretário da CNBB durante ação solidária em Curitiba

Padre Valdecir Badzinski participou de ação com doação de 500 cestas de alimentos e 100 cargas de gás no Alto Boqueirão

Arroz, feijão, café, açúcar, farinha, mandioca, frutas, legumes e verduras orgânicas frescas estavam entre os itens das 500 cestas de alimentos doadas nas vilas Pantanal e Chacrinha, no Alto Boqueirão, em Curitiba. Junto às cestas, 100 cargas de gás também foram partilhadas, e um mutirão de plantio marcou a inauguração da horta comunitária da Chacrinha.

A ação faz parte da União Solidária, articulação composta por cerca de dez entidades, movimentos populares, coletivos e sindicatos de trabalhadores. A ajuda humanitária tem sido realizada desde junho de 2020, com o objetivo de amenizar a crise social que se aprofundou com a pandemia da Covid-19.

Padre Valdecir Badzinski, secretário executivo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) no Paraná, participou da benção da horta comunitária da vila Chacrinha, no final da manhã. O religioso enfatizou a urgência do enfrentamento à insegurança alimentar. “Vamos sanar essa fome. A unidade vence a fome. A solidariedade vence a fome, nós não podemos perder para ela”, disse.

Badzinski afirmou o compromisso de buscar apoio às hortas comunitárias e à agricultura familiar, como forma de enfrentar os altos índices de insegurança alimentar no Brasil. Pelo menos 19 milhões de brasileiros passam fome e 116,8 milhões enfrentam algum grau de insegurança alimentar, segundo pesquisa Rede Penssan, divulgada no início de abril. 
“A solidariedade vence a fome”, afirmou o padre / Ednubia Ghisi

O Arcebispo Metropolitano de Curitiba, Dom José Antônio Peruzzo também participou da ação na sexta-feira (11), durante a montagem das cestas, quando abençoou os alimentos.

“Se eu estou com fome, meu problema é material. Mas se o meu irmão está com fome, meu problema é espiritual. Enquanto eu ignorava a dor do outro, meu problema não foi resolvido e a dor não é apenas de um estômago vazio, mas de uma vida sem sentido”, enfatizou o líder religioso.

A ação foi realizada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra do Paraná (MST); o Sindicato dos Petroleiros do Paraná e Santa Catarina (Sindipetro-PR/SC); Comissão da Dimensão Social da Arquidiocese de Curitiba; Centro Comunitário padre Miguel (Cocopam); Associação dos Professores da Universidade Federal do Paraná (APUFPR); Produtos da Terra; Coletivo Marmitas da Terra; APP-Sindicato Estadual, e Núcleo Curitiba Sul; e Partido dos Trabalhadores do Paraná (PT-PR).


Ação foi articulada por cerca de dez entidades / Nelson Orlando de Andrade

Trabalhadores ajudando trabalhadores

“A ação do MST, com as outras organizações, traz alívio financeiro, porque a maioria trabalha com reciclagem. Esse trabalho está diminuindo com a pandemia. É um alívio saciar a fome dessas pessoas nesse momento”, relatou Leonice Piske, que trabalha há 19 anos na comunidade com o projeto “Resgate Vila Pantanal”.

A maioria das famílias das duas comunidades enfrenta dificuldade para garantir comida na mesa. Somado a isso, parte das moradias ainda sofre com a falta de energia elétrica. A Unidade de Saúde local também está desativada há meses, o que dificulta o acesso a atendimento neste período de crise sanitária.


Famílias do bairro enfrentam dificuldade de conseguir comida, falta de energia elétrica e dificuldade de acesso à saúde / Nelson Orlando de Andrade

Andressa da Cruz é liderança da comunidade Chacrinha e falou sobre a importância da ação. “Nessa fase que a gente está vivendo hoje, nesta pandemia, ter pessoas que estão dispostas a ajudar, e a formar essa horta que está ficando pronta, é maravilhosa. Eu só tenho a agradecer a Deus e a vocês. É uma felicidade muito grande estar conseguindo esse projeto da horta”. A comunidade existe há cerca de 60 anos, e atualmente é formada por 60 famílias que lutam pelo direito de permanecer na área.

Cerca de três mil quilos de alimentos agroecológicos foram doados pelo povo Sem Terra na ação. Mandioca, batata-doce, cenoura, brócolis, chuchu, limão e verduras em geral fazem parte da diversidade de itens colhidos diretos das hortas e lavouras das comunidades.

As comunidades participantes da atividade são os acampamentos Padre Roque Zimmermann e Maria Rosa do Contestado, de Castro, e os assentamentos Contestado, da Lapa, e São Joaquim, de Teixeira Soares. A reforma agrária também estará presente nos alimentos não-perecíveis adquiridos pelas entidades integrantes da União Solidária.

As cargas de gás de cozinha vêm de doações dos trabalhadores da Petrobrás, que defendem a redução dos preços deste item essencial à sociedade, com o fim da política de valores atrelada ao dólar e à variação do barril do petróleo no mercado internacional, chamada de PPI (Preço de Paridade de Importação). O país possui reservas de petróleo e refinarias, o que possibilita a prática de preços baseada na produção nacional.


Mutirão criou horta comunitária no local da ação / Nelson Orlando de Andrade

Produção de alimentos na própria comunidade

Em uma área de aproximadamente 1.700 metros quadrados, que até poucos dias abrigava entulhos e restos de construção, agora está formada a horta comunitária da vila Chacrinha. O terreno foi cedido por um morador e foi sendo preparado ao longo dos últimos 10 dias.

Os canteiros receberam 150 mudas de árvores nativas e frutíferas e 35 caixas de mudas de verduras e legumes, como brócolis, repolho, couve, cebola, escarola, beterraba, cebolinha e salsinha. Moradores da comunidade e militantes das organizações da União Solidária realizaram o plantio em mutirão, ao longo do sábado.


Horta deve complementar alimentação das famílias da comunidade / Wellington Lenon

O preparo e o plantios tiveram orientação técnica de integrantes da Escola Latino Americana de Agroecologia (ELAA), e máquinas da Cooperativa Terra Livre, ambas localizadas no assentamento Contestado, da Lapa. O objetivo é que a horta complemente a alimentação das famílias da comunidade.

Fonte: BdF Paraná